Como uma adolescente grávida e com nome de deusa me fez acreditar nas desavenças da vida adulta.
Ser adolescente é difícil, crescer é complicado e administrar amizades, vida social e acadêmica, romances e hobbies é ainda mais, imaginar fazer tudo isso e ainda engravidar aos 16? Pois é, você não gostaria de estar na pele de Juno, tiro isso por mim.
Eu tenho um medo irreal de engravidar, mesmo sendo impossível no pé da vida que me encontro e parece que quanto mais velha eu fico, mais medo adquiro, o que eu confesso, pode ser absolutamente controverso para algumas pessoas. Mas pense comigo, se com a idade vem a maturidade, por que eu me sinto cada vez mais despreparada? Mas não se importe com meus devaneios, um certo amigo vem traçando meu futuro e alimentando alguns fantasmas. A verdade é que eu não tenho a menor ideia de como minha mãe me teve com a idade que tenho hoje, e não consigo nem assimilar a coragem de Juno de conceber um filho aos 16.
Sendo batizado com o mesmo título que o nome da protagonista, Juno é uma comédia adolescente de 2007 protagonizada por Elliot Page, onde tudo começa com uma poltrona, assim como praticamente todas as histórias de gravidez indesejadas na face da Terra, poltrona, sofá, cadeira de bar ou de praia, parece um consenso comum conceber um filho, não planejado, em alguma dessas confecções.
Depois de reger um dos sentidos da vida e levar sua gravidez adiante, é hora de Juno decidir o que fazer com aquele pequeno feto que em nove meses atravessaria caminhos nunca explorados antes.
Contando com o apoio incondicional da melhor amiga e de sua família, nossa protagonista vai em busca de uma família adotiva, e aonde essa busca toma início minha cara escritora? isso mesmo meu caro leitor, como em todos os bons filmes americanos, em anúncios no jornal. E ela realmente encontra uma família digna de propaganda de margarina, estabilizados, bem de vida e desesperados por um filho (pelo menos a esposa está), parece o lar perfeito e os pais que caíram do céu, o que mais uma adolescente -não tão responsável- poderia desejar?
Quando se cai de bicicleta e quebra um osso tudo que resta é esperar, esperar para que o tempo cure suas feridas e você logo volte para sua vida, Juno fez o mesmo, não é como se ela encontrasse na criança um fardo, até porque não se pode carregar um fardo que não é seu (ou pelo menos não deveria). Ela nunca sentiu como se o bebê fosse dela – e nem Paulie, o pai, que não é um completo idiota que não quis fazer parte da gravidez se é o que está se perguntando, ele só é um tiquinho lerdo, mas essa é outra história- então assim como um osso recuperando sua forma e voltando ao lugar, a vida de Juno vai tomando o mesmo caminho.
O filme em si é um alívio cômico, e é extremamente interessante ter esse olhar “revolucionário” sob uma temática tão trágica (pelo menos na vida de uma adolescente) que seria engravidar. Juno se mostra madura em vista do todo, arca com as consequências dos seus atos e entre percalços e dificuldades lida com sua situação da melhor maneira que pode.
Como todo filme adolescente que diz “crescer é difícil”, esse aqui realmente mostra essa temática, mas não é impossível e nem quer dizer que deveria ser um estorvo. Você não precisa se transformar num mártir ao atravessar estradas esburacadas e inoportunas da vida, nem mesmo se isolar e acreditar que só você entende a dor que está passando e a atribulação provocada pelos seus demônios são exclusivamente suas, eu mesma mantenho essa teoria de que nenhuma experiência é individual, ou pelo menos não completamente.
A vida é repleta de incertezas e o mundo cheio de novas experiências e momentos a serem vividos. O longa traz uma perspectiva interessante sobre ser adolescente, sobre viver, não é um atalho que te levou a estrada errada que tem o poder de te fazer se perder, você escolhe os caminhos que irá traçar e com isso as certezas que lhe serão concebidas.
Com uma ótima trilha sonora, cinematografia digna de um filme coming of age, Juno traz percepções não tão exploradas da vida, de um jeito não convencional e cômico. Personagens cativantes e bem construídos, assim como a trama, irão te impulsionar ao longo da história.
E ah, se deseja saber qual é a da família 10, o que acontece com Juno (e Paulie) e entender mais a dinâmica familiar e social da personagem, terá que dar um streaming no filme, tenho certeza que você encontra em alguma plataforma -nem se for nas não tão convencionais- 🙂
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