A necessidade de criar arte em um mundo cada vez mais dominado pela IA
Os Fabelmans é um filme lançado em 2022 e dirigido pelo Steven Spielberg. O filme é essa crônica autobiográfica, onde vamos explorar desde o começo da infância até um ponto muito preciso da vida do diretor, e de como a arte, nesse caso, a paixão pelo cinema, moldou toda a sua vida e alterou a forma que ele olha e se conecta ao mundo. O filme é uma carta de amor aos aspirantes da arte, mas também dos percalços e dos perigos que envolvem descobrir a chama de um artista.
Durante o filme, arte e vida pessoal se misturam, uma ajudando a compreender a outra. Os pais quando são gravados e principalmente quando não percebem que estão sendo gravados pela câmera, demonstram emoções, falhas, camadas de vida que se tornam esquecidas no dia a dia, mas que perante o olhar de uma câmera, acaba ganhando todo uma nova forma de ser vista.
O filme é constantemente essa luta para se encaixar, para tentar compreender quem somos e as motivações que envolvem nossa paixão pela arte. O jovem protagonista precisou assistir um único filme no cinema e isso alterou toda sua linha de vida, todo o percurso que ele iria fazer, e quantos outros foram arrebatados pelo mesmo poder? Pessoas abrem livros e leem suas páginas, e agora ideias, palavras e histórias correm pelas suas veias, descobrem-se incapazes de não escrever, despertam para uma outra vida que talvez seja de impossível compreensão para aqueles que não sentem o desejo de criar arte, de se render a ela, de ser destruído, criado e guiado por essa sensação de perseguir algo que até mesmo para os artistas parece tão impossível de ser descrito. Talvez aí viva a mágica da arte, passar uma vida inteira tentando criar algo que seja capaz de descrever essa paixão e falhar constantemente, e quando se falha já saber que virá outra ideia, outra tentativa até o dia que morrermos.

A arte é algo impossível de se escapar, não importa o quanto se tente, não importam os medos, as aflições, o terror de nunca ganhar dinheiro ou ser reconhecido, a arte coloca uma coleira em seu pescoço e faz com que você o trate como rei, seus olhos tentam desviar, seu corpo tenta esquecer, mas cada célula sua desperta, ecoa, grita, despeja essa sensação dourada por todo o seu ser. E quando você percebe, já imagina a próxima ideia, pega em uma câmera, em um pincel, em um lápis ou se encontra performando como se estivesse em um palco ou no set. Artistas amam desesperadamente sua própria arte, sofrem por isso, ferem a si mesmo e vivem no desespero de equilibrar o amor pela paixão artística e o amor pelas pessoas que envolvem suas próprias vidas, e no interlúdio dessa guerra, obras-primas são criadas, livros são escritos, músicas são tocados pela primeira vez, palavras saem de forma perfeita em uma apresentação e uma pessoa segura uma câmera com a confiança de saber que encontrou aquilo que quer fazer.
Vivemos em um mundo onde Inteligência Artificial rouba artes de pessoas para tentar criar algo totalmente sem alma, e isso é assustador, o que torna a arte algo tão sensível, profundo e intrigante é o fato que ela é totalmente humana, com todas suas qualidades e falhas, ela é criada por pessoas diferentes, que cresceram em lugares diferentes, países, línguas, culturas e viveram vidas tão diversas, são pessoas que carregam dentro de si camadas de histórias com seus próprios erros e acertos, são pessoas que se conectaram com a arte de outros artistas e que foram transformadas por isso, tão transformadas que agora criam suas próprias, pois são incapazes de não criar, são incapazes de não tentar, existe algo dentro delas, uma necessidade de contar essas partes que são criadas dentro de si, todo instante, todo momento, seus olhos estão focados no próximo e próximo, na próxima história, música, pintura, filme, dança, atuação, enfim, na próxima criação de seus corações.

Não podemos normalizar a IA roubando arte para criar coisas sem alma, não podemos normalizar só pela razão de às vezes ser perfeito de uma forma que só um robô sem qualquer expressão é capaz de fazer. A arte do ser humano é falha e é realista, mas quando ela se aproxima da perfeição ou quando ela até mesmo alcança, não existe nada que pode se igualar, nem mesmo uma máquina com a precisão de um cirurgião.
Em um mundo onde grandes empresas e pessoas preguiçosas querem normalizar IA para pintura, roteiros, atuações, normalizar em tudo que o ser humano é capaz de brilhar, de querer colocar algo tão grotesco e sem alma, algo que é uma ofensa a tentativa humana de sempre tentar melhorar, de sempre se impulsionar para frente, de sempre querer criar… um filme como Os Fabelmans se torna extremamente necessário, é uma carta de amor que expressa a razão dos seres humanos serem obcecados pela arte e como alguns de nós vão passar a vida inteira perseguindo esse sonho, é uma prova viva que a arte é um território humano, e que nesse mundo que apenas pensa pela perspectiva fria da tecnologia, querer criar arte, continuar criando arte, sonhar com arte é uma ousadia que apenas algumas almas ainda são capazes de ter.
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