Minha mãe é uma peça mas também é a minha base
Uma série que definitivamente marcou a minha vida tem sua trama em torno de um grupo de quatro amigas onde cada uma delas tem uma personalidade marcante. Enquanto uma é mais sedutora e confiante, outra é conservadora e quer apenas viver o seu conto de fadas,também temos uma mulher de negócios forte e determinada, já a quarta integrante é uma romântica incurável que se apaixona loucamente por um homem simplesmente lhe dirigir um sorriso. Quatro pessoas tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. Eu poderia estar falando de Sex and the City ,que também se encaixa perfeitamente nessa curta descrição, mas me refiro ao ultra-dramático e infelizmente extremamente esquecido Desperate Housewives.
Eu assisti pela primeira vez quando tinha 11 anos. Estava navegando pela Netflix e logo fui capturado pelo mundo escandaloso de Wisteria Lane, onde nada é o que parece. Maratonar os episódios e solucionar os novos mistérios que as protagonistas enfrentavam rapidamente se tornou mais importante para mim do que tentar aprender matemática. Justamente por isso sempre me intrigou e chateou o fato de que ninguém ao meu redor sequer tinha ouvido falar sobre a obra, claro que não vou tentar fingir que a série é uma produção cult obscura, afinal ela teve oito temporadas e recebeu até mesmo uma versão brasileira estrelada por Sônia Braga. A série definitivamente tem um impacto e apenas “não sobreviveu” ao tempo como outras de sua geração, o que francamente não faz nenhum sentido, pois ela não deve nada a suas semelhantes. Se você tem a assinatura do Disney+ sugiro que vá correndo ver, você não sabe o que está perdendo!

Como é de se esperar de uma série dos anos 2000, ela contém diversos elementos problemáticos que são difíceis de assistir com os olhos de hoje, mas se tem algo que deve ser celebrado como um impacto positivo (mesmo que não reconhecido) é o protagonismo e a humanização de mulheres, especialmente mais velhas, enxergando-as para além da maternidade. Praticamente todas as personagens femininas da obra se tornam mães em algum ponto, contudo suas personalidades e caráter não são definidos por suas ações enquanto tal, elas são seres humanos complexos e completos para além disso.
Isso pode até não parecer nada demais, mas na realidade é um verdadeiro refresco para a ficção e vida no geral, quero dizer, você já parou para pensar em quanto a nossa cultura é rápida em vilanizar figuras maternas? Culpando-as e julgando-as pelas ações de seus filhos, se a criança revela alguma dificuldade as pessoas são rápidas em dizer que isso é porque a mãe foi ausente, negligente, superprotetora, exigente, rígida, extremamente liberal, mimou demais, independente de qual for a conduta da mãe, ela sempre será, na grande maioria dos casos, colocada como a principal ou quiçá a única responsável pelas “falhas” de seus filhos. Seus erros enquanto mãe serão usados para julgar e determinar todo o seu caráter.
Isso não é apenas coisa do senso comum, está na ciência também. Nosso grande amigo Freud, em uma de suas teorias mais famosas, “O complexo de Édipo”, enfatiza como um dos principais estágios do desenvolvimento de jovens meninos é a fase em que ele deseja a sua mãe, é hostil em relação ao seu pai e teme que em retaliação seu genitor possa castrá-lo. A resolução é que eventualmente o menino superaria esse afeto excessivo pela mãe, passando a se identificar e afeiçoar mais ao seu pai e enxergando-o como exemplo. Os jovens que não passassem por esse processo de superar seu amor doentio (leia-se consideração) por suas mães, estariam condenados a se tornarem pervertidos ou, Deus os livre, homossexuais (alerta de ironia).
A teoria de Freud recebeu críticas ao longo dos anos e não tem a mesma credibilidade que antes, porém não há como negar o quão influente ela foi para a psicologia e os estudos da mente durante basicamente todo o século XX e o quanto ela se infiltrou no imaginário popular. Venha fazer um exercício de memória comigo, você se lembra de algum personagem problemático ou um relato sobre a trajetória de um criminoso em um podcast descolado de True Crime? A relação dessa pessoa/personagem com a sua mãe e/ou demais mulheres de sua vida é enfatizada como algo relevante e correlacionado a suas ações criminosas ou moralmente questionáveis?
Um dos exemplos mais famosos é Norman Bates de Psicose (1960) cujo caso real é um exemplo máximo da culpabilização da mãe pelas ações dos filhos. Há ainda diversos outros exemplos, como a mãe fanática religiosa de Carrie, as madrastas más dos contos de fadas (ou como no conto original da Branca de Neve em que a Rainha Má é a sua mãe biológica). Até mesmo casos que supostamente deveriam ser uma sátira a esse tipo de narrativa acabam por o repetir, como Rorschach de Watchmen que foi pensado como uma sátira ao conservador moralista misógino que acredita em uma “limpeza da imoralidade da população” e tem como história de fundo o filho de uma prostituta abusiva, mesmo contra a vontade do autor isso contribuiu para que uma parcela considerável do público se identificasse com ele e o considerasse seu herói (Alan Moore sempre teve um problema em escrever mulheres). Além disso, já cansei de ouvir sobre mães narcisistas, o quanto mães de meninos são horríveis e mães de meninas são ainda piores por serem as maiores inimigas de suas filhas.
Obviamente existem mães horríveis por aí, afinal de contas, pessoas detestáveis também se reproduzem, mas no geral as mães são culpadas por tudo, onde estão os “pais narcisistas”? Nossas mães já erraram e erram em relação a nós pois elas também são pessoas, falhas e imperfeitas e mesmo com as melhores intenções cometem deslizes. Então até quando a humanidade será negada a elas?
Quando criança nossa visão de mundo é autocentrada, é como se não existisse um mundo antes de nós e temos até dificuldade em conceber a ideia de que nossas mães tiveram toda uma vida anterior, é como se elas fossem uma mera extensão de nós, nessa fase é comum ter uma visão idealizada, elas são as nossas heroínas e protetoras. Já na adolescência a relação se torna difícil e de conflitos de interesse, queremos nos expressar e rebelar e elas se tornam nossas censoras, não permitem que sejamos nós mesmos e são incapazes de entender nossos dilemas, parece que querem que fiquemos aprisionados em caixinhas, saímos de um extremo a outro. A maturidade porém traz um novo olhar, passamos a nos ver no lugar delas e entender suas ações, não necessariamente concordar, mas conseguir compreender o porquê de suas ações e que no fundo elas apenas estavam fazendo o que achavam que seria o melhor para nós. Seus erros se tornam menos graves, pois assim como nós, essa é a primeira vez delas vivendo e tentando ser a sua melhor versão. No final acabamos percebendo que apesar de querer nos distanciar o máximo sempre terá uma grande parte delas em nós, temos mais em comum com elas do que com a grande maioria das pessoas e nos pegamos repetindo seus comportamentos, pensamentos e até mesmo os mesmos erros, por mais que não queiramos, assim como elas também prometeram para si mesmas que não repetiriam os erros de suas mães.

A arte como boa imitadora da vida reflete as complexidades das relações maternas em diversos casos, um exemplo notório é o clássico Gilmore Girls. Somos cativados pelo charme de Lorelai que após engravidar aos 16 anos foge da restrita casa de seus pais ricos em busca de sua independência e proporcionar uma criação liberal para a sua filha. Ao longo do desenrolar da série acompanhamos simultaneamente os altos e baixos da relação de Lorelai tanto com sua filha quanto com a sua mãe, que de certa maneira formam um paralelo perfeito. No início Emily, a mãe de Lorelai, aparece apenas no lugar de figura opressora que reprime sua filha em todos aspectos de sua individualidade e apesar de ela constantemente tomar atitudes que confirmem essa visão, vemos o quanto ela sofreu com o afastamento de sua filha e como na verdade ela admira a mulher independente que Lorelai se tornou, algo que ela nunca teve a chance de ser. A criação rígida de Lorelai se mostra como um reflexo da própria criação de Emily que genuinamente acreditava estar fazendo o melhor, Lorelai começa a tirar a matriarca do lugar de algoz para entender que no fundo e de sua maneira distorcida ela sempre teve boas intenções. A relação com sua filha Rory, de início tão perfeita que simplesmente não exprime qualquer nível de realismo, passa por situações desafiadoras em que as duas se põe uma contra a outra, Rory toma atitudes que choca e decepciona Lorelai, que por muitas vezes acaba repetindo atitudes de sua mãe que ela tanto criticou, na tentativa de ser o oposto da mãe ela acabou se tornando mais parecida a ela do que jamais poderia imaginar.
Um exemplo mais moderno é Ginny e Georgia que traz uma dinâmica de mãe e filha semelhante a Gilmore Girls, também representando uma mulher que teve sua filha na adolescência, mas as semelhanças acabam por aí. Diferente de Lorelai, Georgia vem de uma origem humilde e disfuncional da qual ela se vê obrigada a fugir e ao engravidar promete a si mesma garantir um futuro melhor para a sua filha, mesmo que isso signifique tomar atitudes repreensíveis. E aqui não estamos falando de atitudes questionáveis como a que Lorelai comete ao ter um caso com o professor de sua filha, estamos falando de crimes. Georgia faz de tudo pelo bem de seus filhos, incluindo assassinato, ela precisa estar no controle de tudo e garantir que tudo irá ocorrer como ela planejou, o que aliado a uma falta de sensibilidade gera conflitos com Ginny. Em muitas situações ela está, sim, totalmente errada, um exemplo é que ao longo da série é mostrado sua admiração por E o vento levou (1939), ela chega a se fantasiar da protagonista Scarlett O´Hara em um episódio de Halloween, sem parar para pensar em todo o contexto e elementos racistas da obra e o quanto seria violento para a sua filha, uma menina negra, ver a mãe fantasiada de uma personagem que representa a elite escravista do sul dos Estados Unidos. Uma personagem falha, sem sombra de dúvidas, e que as tem apontadas de forma correta na série, mas algo que não deixa dúvidas é o quanto ela ama Ginny e quer apenas protegê-la. Enquanto no início Ginny repulsa as atitudes de sua mãe e a considera a verdadeira vilã de sua vida, no decorrer da trama ela passa a entender e ter mais empatia por ela, após alguns erros próprios, não a perdoando totalmente, mas apreciando o quanto sua mãe sempre se esforçou por ela e seu irmão.
Isso é quando falamos de mulheres que já são mães, mas um outro bom exemplo é a já citada Sex and the City. Acompanhando as aventuras das quatro amigas, um tópico que constantemente surge é o que elas sentem em relação a maternidade. Para Samantha a maternidade é um pesadelo e algo que ela jamais cogitou, Carrie chega a pensar sobre, mas está ocupada demais com o BIG e seus sapatos para realmente decidir se isso é algo que ela almeja ou não. Enquanto isso, para Charlotte a maternidade é o seu grande sonho e tudo o que ela mais almeja, o que faz com que ela se frustre quando descobre que tem dificuldades reprodutivas e poucas chances de conceber um filho naturalmente. Ironicamente, nesse mesmo tempo, Miranda engravida por acidente, de início ela rejeita a ideia de ser mãe, mas acaba se apaixonando por seu filho. Como SATC se tornou uma grande franquia, acompanhamos a trajetória delas como mães, desde o nascimento de Brady, filho de Miranda, até ele se recusar a ir pra faculdade, e Charlotte finalmente se tornando mãe, eventualmente se deparando com dois adolescentes rebeldes. Nós as conhecemos antes de serem mães, nós sabemos como são suas personalidades, qualidades e defeitos e por isso é fácil entender as atitudes que elas tomam em relação a seus filhos, muitas vezes simpatizando mais com elas do que com os filhos que aparentam ser “mimados”.
No fim é uma questão de perspectiva e eu tenho para mim que se todos assistíssemos a um filme sobre a vida de nossas mães iríamos nos achar uns pirralhos ingratos rs. Para sintetizar a tese desse texto, amadurecer é entender o que fez nossas mães serem do jeito que são e nos criarem do jeito que criaram. Sobretudo, agradecer, apesar de qualquer crítica que tenhamos a elas e à sua maneira de sempre terem tentado fazer o melhor que podiam. Minha relação com a minha mãe não é perfeita, temos nossas discussões, mas sei que sou privilegiado por tê-la e não sei o que faria sem ela em minha vida, sei que não são todos que tem essa sorte e que sim, muitas vezes a mãe é uma figura destruidora na vida de seus filhos, e para essas pessoas eu realmente desejo o melhor e que possam se libertar dessa presença tóxica, mas se você assim como eu se sente privilegiado pela mãe que tem, então abraçe-a e a diga o quanto você a admira, ela merece. E no final, quanto aos nossos traumas, vamos apenas torcer para traumatizar nossos filhos de outras formas 🙂 .
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