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Redação Analisa | Antes Que Eu Vá e a monotonia de não se reconhecer

Uma análise para quem se perdeu e precisa se encontrar, mas a mesmice é confortável demais.

Eu encontro conforto na tristeza. Parece algo mórbido e sombrio, até mesmo inaceitável de se dizer (se for uma pessoa completamente sã e regular perfeitamente bem, o que eu acredito ser extremamente difícil atualmente). É reconfortante saber que existem pessoas que pensam o mesmo que você, que vivem pelo mesmo que você está passando, que perambulam pelos dias e semanas do mesmo jeito que está tão acostumada a fazer. 

Antes Que Eu Vá é uma adaptação do livro com mesmo título, lançada em 2017, e narra a história (mesmice singular) de Sam, uma garota popular, cheia de amigas e uma vida de invejar, isso se você deseja reviver o mesmo dia todos os dias. 

Depois de uma festa vergonhosa e catastrófica, Samantha e seu bando sofrem um acidente na estrada e abruptamente ela passa a viver o mesmo dia sem parar. Eu não li o livro, mas pelo o que eu posso dizer tendo apenas assistido ao filme, é que Sam é submetida a um lapso no tempo, sendo jogada para mesma manhã todo início de madrugada.  

Reprodução: Antes que eu vá

Sam não tem muitas preocupações na vida, ela também não faz muita diferença no mundo – isso num paradoxo em que você será absurdamente importante e solucionará problemas socioculturais de grande escala. Ela é uma representação pura do ordinário nesse quesito, pode-se até falar que ela é o contrário, chega a ser malvada e irresponsável com sentimentos alheios, ela é uma adolescente perambulando pela vida, até ser impedida. 

O que eu desejo com esse texto nada mais é do que analisar as complexidades dos relacionamentos da protagonista, em principal a relação consigo mesma. Presa em um looping muito antes de qualquer acidente, Sam começou o filme tentando administrar seu relacionamento amoroso perfeito e sua primeira vez perfeita para combinar com a sua vida perfeita e suas amigas perfeitas. Essa procura demonstra o vazio exponencial que existe nela: ela não procurava um parceiro por amor, vontade própria ou desejo, ela procurava alguém para preencher um cargo social. 

Essa decisão valida e atesta um diagnóstico óbvio, Samantha vivia através da régua dos outros, em especial de sua melhor amiga Lindsay. Nessa procura em agradar, encaixar-se e ser adorada, ela deixou de viver para si e passou a cativar emoções, relacionamentos e rotinas que nem ao menos condizem com suas vontades. 

Eu não desacredito no amor de Sam por suas amigas, no entanto eu acredito naquela velha ideia clichê de que a adolescência é uma estrada longa, confusa e atribulada, e nem sempre a sua melhor versão é a que você está apresentando. A juventude é fase de conhecimento, aprimoramento, mudanças e, principalmente, testes. 

E é exatamente isso que acontece com a nossa protagonista, ela testa do início até o final, para sair do seu looping atemporal, é preciso descobrir onde ela errou, o que precisa mudar, melhorar, modificar.  

Viver o mesmo dia todos os dias é exaustivo. Primeiramente ela acredita ser um sonho, depois encara sua dura realidade e tenta fazer o melhor para sair dali, mas quando a esperança não passa de uma farsa implementada pelo seu cérebro em busca do conhecido, a ira e desespero se agrupam. 

Reprodução: Antes que eu vá

Presa em um aglomerado de dias e em uma vida uniformizada, Sam precisa lidar com seus erros e percalços, ela precisa acertar onde se equivocou, mudar o que nunca funcionou e se salvar de si mesma. 

Mas o que ela fez afinal para voltar a orbitar sua própria existência? Ela finalmente descobre seu verdadeiro propósito, o papel que deve atuar na grande visão das coisas, e às vezes é isso que precisamos para voltar a viver nossas vidas e compreender nossas “demandas”, um único (ou vários se for sortuda e conseguir) propósito. 

“So many things become beautiful when you really look”

Antes Que Eu Vá é uma obra fictícia não tão impossível assim de se identificar, com uma trama concisa e uma personagem cinza. Sam te fará refletir por semanas.

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